
A beleza é um conceito subjetivo. Algumas pesquisas já constataram que o que consideramos bonito, além das questões culturais, passa pela simetria e pela harmonia. Então, o belo seria tudo que está matematicamente em proporção com seu conjunto? Na maior parte das vezes sim, outras não.
O belo é um conceito temporal. De tempos em tempos, algo que era considerado feio passa a ter um status de bonito e aos poucos as pessoas vão vendo aquilo como algo belo.
E o barroco? É belo pela sua capacidade de atrair os olhos para focos múltiplos, de surpreender por algo inesperado.
Assim, é o corpo humano: uma tensão entre a proporção clássica e os arroubos do barroco. O conceito de belo para o corpo feminino passou por muitos parâmetros; porém o masculino pouco mudou. Desde a antiguidade o corpo masculino tem que ser forte, poderoso e viril. E para isso o homem fez força, levantou pedra e puxou ferro. Depois, usou substâncias sintéticas. Agora, intervenções cirúrgicas. Não basta ser forte, tem que ser grande.
Mas para que serve o corpo? Entre todas as respostas possíveis e cabíveis, penso em uma: o corpo é a possibilidade que a alma tem que estar presente no mundo. O corpo é pra ser tocado. A contração dos músculos e o eriçar dos pelos é o modo como ele reage ao toque, dizendo a quem toca que não pare e ao cérebro que está na hora de derramar por todo ele aquela dose de serotonina que vai dar à alma um prazer infinito, ainda que fugaz.
Mas ai chegamos na era dos ciborgs. Breve está a grande época iluminada da medicina onde iremos produzir órgãos e peles em laboratório para aplacar a dor dos enfermos e dos mutilados.
Por enquanto, estamos produzindo um circo de horrores que aspira à beleza clássica. Uma prótese de silicone nunca vai vibrar, contrair e arrepiar na mão de quem a toca. Boca, peito, bunda e pau moldados na mesa do cirurgião não dão a quem contempla aquele corpo o fascínio do arrebatamento: aquele nariz um pouco maior do que devia, aquela perna levemente torta, aquela gordurinha no flanco, não estão ali pra ameaçar a perfeição, mas pra dar a ela personalidade. Enquanto isso, uma porção de "apêndices" além de fugirem ao toque só escancaram a profunda solidão e tristeza que carregam a alma dona daquele corpo. É um corpo frio, sem a beleza imponente e fria de uma estátua de mármore.

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